Chegou mercadoria a mais: como registrar o excesso e combinar a devolução com o fornecedor

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Em resumo

Se chegaram mais unidades do que a empresa comprou, confira pedido, nota fiscal e quantidade física, registre a diferença e separe o excedente para evitar uso ou revenda por engano. Avise o fornecedor por escrito e combine retirada, transporte, documentação fiscal e ajuste da cobrança. O excesso não deve virar compra, bonificação ou descarte por uma decisão informal de quem recebe a carga.

Revisão jurídica e fiscal: 18 de outubro de 2026.

O pedido era de 100 peças; chegaram 120. O funcionário assinou o comprovante antes de contar, e o fornecedor propôs deixar as 20 extras para o mês seguinte. O estoque quer usar tudo, mas a cobrança veio integral. É preciso separar o que foi contratado, o que chegou e qual destino foi aceito para a diferença.

Este guia trata do excesso em fornecimentos privados entre empresas, sobretudo para revenda ou produção. Importação, contratos públicos e produtos controlados exigem análise específica. Os textos e prazos exemplificativos são sugestões de organização, não regras legais universais.

Neste artigo
  1. Antes de chamar de excesso, descubra qual quantidade era devida
  2. A nota fiscal e o recebimento não resolvem sozinhos a compra do excedente
  3. O que fazer na doca ou assim que a diferença aparecer
  4. Como montar um registro de excesso que permita reconstruir os fatos
  5. Pedido, nota e estoque: diferenças que exigem decisões distintas
  6. Como avisar o fornecedor sem aceitar uma cobrança adicional
  7. Guarda temporária: o excedente precisa continuar identificável
  8. A regularização fiscal precisa acompanhar o movimento real
  9. O que precisa ficar combinado para a devolução funcionar
  10. Cláusulas para adaptar ao acordo de retorno
  11. E se a empresa decidir ficar com parte do excedente?
  12. Duas situações práticas que merecem atenção
  13. Como tratar o pagamento enquanto a devolução está pendente
  14. O fornecedor não responde ou não retira: como avançar
  15. Feche a ocorrência com quatro confirmações
  16. Perguntas frequentes
  17. Conclusão
  18. Fontes

Antes de chamar de excesso, descubra qual quantidade era devida

A comparação deve partir do pedido aceito e de suas alterações válidas. Uma previsão mensal de consumo pode ser apenas uma estimativa; uma ordem de compra aprovada pode autorizar uma entrega específica. Se o fornecedor recebeu duas versões, identifique qual prevaleceu e quando a substituição foi confirmada. Evite concluir que a segunda entrega foi indevida antes de conferir se compras autorizou um complemento fora do sistema.

Verifique também a unidade de medida. Dez caixas com 12 unidades somam 120 peças; dez caixas com dez unidades somam 100. O número de volumes no conhecimento de transporte não é necessariamente o número de produtos comprados. Em material vendido por peso, registre peso bruto, tara e peso líquido, além do equipamento e do método utilizados. A divergência precisa ser expressa na mesma unidade do pedido para que a conta possa ser conferida por outra pessoa.

Alguns contratos admitem variação de quantidade, sobretudo quando o produto é medido, cortado ou produzido em lotes. Confira se existe tolerância expressa, qual é sua base de cálculo, se vale para mais e para menos e como repercute no preço. Não presuma uma tolerância de 5% ou 10% porque ela é utilizada por outro fornecedor. Também não confunda margem técnica de medição com autorização comercial para entregar e cobrar mais.

O Contrato de Fornecimento pode servir de base para definir pedidos, quantidades, conferência e responsabilidades de transporte. Adapte o texto à operação: quem autoriza alterações, como se calcula a quantidade e o que ocorre quando há excedente. A assinatura de um modelo não resolve uma unidade de medida ambígua nem substitui o pedido efetivamente aprovado.

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Use a mesma unidade de medida antes de calcular o excedente.

A nota fiscal e o recebimento não resolvem sozinhos a compra do excedente

O Código Civil vincula a compra e venda ao acordo sobre objeto e preço, exige boa-fé e disciplina a restituição do que foi recebido indevidamente. Por isso, o envio de unidades extras não basta, isoladamente, para demonstrar uma compra adicional; também não autoriza sua apropriação gratuita. A conclusão depende do contrato, das mensagens, dos usos pertinentes e do comportamento das partes. Os artigos 111, 113, 422, 482, 876 e 884 ajudam a analisar essas situações.

Um comprovante de descarga pode registrar somente a chegada de volumes. Outro documento pode conter declaração expressa de conferência integral. Leia o que foi assinado e não tente corrigir o passado com uma anotação retroativa. Se a diferença apareceu depois, produza um registro complementar com data real, explique como foi descoberta e preserve o comprovante original. A ressalva ajuda a esclarecer o fato, mas não elimina automaticamente os efeitos de atos anteriores.

O artigo 39, inciso III e parágrafo único, do Código de Defesa do Consumidor trata do fornecimento não solicitado ao consumidor. Não se deve transportar essa regra mecanicamente para um erro de expedição em fornecimento empresarial. Ter CNPJ também não exclui, por si só, a proteção consumerista: a destinação e as circunstâncias de vulnerabilidade podem importar, conforme a orientação do STJ. Em caso de dúvida sobre esse enquadramento, obtenha avaliação jurídica antes de afirmar que o excedente é uma amostra gratuita.

O que fazer na doca ou assim que a diferença aparecer

Comece por uma recontagem dirigida ao item divergente. Confira código, descrição, lote, embalagem e eventual número de série. Quando for viável, peça a uma segunda pessoa que acompanhe a apuração. Registre se todas as caixas foram abertas ou se a quantidade foi inferida pelas etiquetas. Não apresente uma estimativa como contagem unitária concluída; se houver dúvida, informe a pendência e programe a conferência complementar.

  • Identifique a entrega: fornecedor, estabelecimento destinatário, pedido, documento fiscal, data, hora e transportadora.
  • Apure a diferença: quantidade contratada, quantidade indicada na nota, quantidade encontrada e unidade de medida.
  • Preserve a identificação: fotografe etiquetas, lacres, lotes e o conjunto separado, sem depender apenas de uma foto genérica do palete.
  • Registre a posição inicial: unidades contratadas aceitas, excedente apontado e destino ainda pendente de acordo, quando for o caso.
  • Acione as áreas responsáveis: compras decide a solução comercial, estoque controla a guarda, fiscal define a regularização e financeiro acompanha a cobrança.

Se o veículo ainda estiver no local, não mande o motorista simplesmente levar as caixas extras sem conferir com o fornecedor e a área fiscal como será documentado o retorno. O motorista pode não ter autorização para decidir pela empresa fornecedora. A possibilidade de recusar ou devolver parte da carga deve considerar a identificação dos volumes, a documentação de transporte e o procedimento fiscal aplicável.

Se a contagem depender da abertura das caixas, registre essa limitação. Quando o aplicativo da transportadora não admitir ressalva, envie comunicação separada vinculada à entrega. Não assine uma declaração sabidamente incorreta apenas para concluir a tela.

Como montar um registro de excesso que permita reconstruir os fatos

Use um identificador para a ocorrência e repita-o na comunicação ao fornecedor, no controle de estoque e no comprovante de retirada. Cada número deve ter origem verificável, para que duas entregas do mesmo produto não sejam confundidas.

Exemplo de registro interno: “Ocorrência EX-2026-041. Entrega de 18/10/2026, às 9h20, vinculada ao pedido PC-184 e à NF-e identificada no anexo. Item AB-10, unidade peça. Pedido aprovado: 100. Quantidade na NF-e: 100. Quantidade contada: 120. Excedente físico: 20. Conferência realizada por [nomes/funções], por abertura e contagem das caixas identificadas. As 100 unidades contratadas foram direcionadas ao estoque correspondente; as 20 adicionais permanecem identificadas no local [referência], aguardando definição de retorno. Compras e fiscal foram comunicados em [data/hora].”

Junte o pedido original, a alteração eventualmente aprovada, o XML e os demais documentos fiscais disponíveis, o comprovante de entrega, a memória de contagem e as mensagens trocadas. Guarde os arquivos originais quando possível. Uma imagem recortada de conversa pode perder a referência ao pedido, a data ou a resposta que modificou a primeira proposta.

Pedido, nota e estoque: diferenças que exigem decisões distintas

SituaçãoPedido / nota / físicoDecisão a registrarCuidado principal
Excesso fora da nota100 / 100 / 120 unidadesDevolver as 20 extras ou negociar sua aquisição.A nota original não descreve toda a quantidade recebida; envolver o fiscal antes do retorno.
Excesso também faturado100 / 120 / 120 unidadesContestar as 20 não autorizadas e combinar devolução e ajuste comercial.Não confundir a emissão da nota com prova suficiente de aprovação do acréscimo.
Erro de conversão10 caixas / 120 peças / 10 caixas de 12Confirmar o conteúdo da caixa previsto no pedido.Pode não existir excesso depois de uniformizar a unidade de medida.
Nova compra aceita100 iniciais e mais 20 aprovadas / documentos a conferir / 120Registrar preço, vencimento e autorização das 20 adicionais.Preservar o histórico do pedido, sem fabricar uma aprovação anterior.
Antecipação negociada100 nesta etapa / documentos a conferir / 120Indicar que 20 correspondem a uma parcela futura específica.Atualizar o saldo do cronograma para impedir nova entrega das mesmas unidades.

Como avisar o fornecedor sem aceitar uma cobrança adicional

Avise o contato responsável pelo pedido e utilize o canal contratual. Inclua logística e fiscal quando a solução depender dessas áreas. Obtenha confirmação de quem pode organizar a coleta e os documentos; identifique pedido e ocorrência no assunto.

Exemplo de comunicação: “Na conferência da entrega referente ao pedido PC-184, identificamos 120 peças do item AB-10, embora o pedido aprovado seja de 100. O registro e as fotos seguem anexos. As 20 unidades excedentes estão identificadas e não foram liberadas para uso. Não solicitamos sua aquisição. Pedimos confirmação do excesso e proposta de retirada, com transportadora, janela de coleta, responsabilidade pelos custos e documentos fiscais necessários. Solicitamos retorno até [data], para organizar a operação. Favor confirmar também o ajuste de eventual cobrança relacionada às unidades excedentes.”

Guarda temporária: o excedente precisa continuar identificável

Crie uma posição física ou um controle que impeça a mistura involuntária com o estoque liberado. Dependendo da operação, isso pode significar uma área delimitada, uma etiqueta de bloqueio ou um lote separado no sistema. A finalidade é permitir que produção, vendas e expedição saibam que aquelas unidades têm destino pendente. Um e-mail apenas para compras não impede que outro turno consuma o material.

Preserve as condições de conservação adequadas e registre movimentações necessárias. Se uma caixa tiver de ser aberta para conferir o conteúdo, anote essa intervenção. Se for preciso transferir o lote para outro ponto do estabelecimento, atualize a localização. Não elimine rastreabilidade para facilitar o inventário e não mantenha o excedente deliberadamente em condição que favoreça sua perda.

O controle operacional de bloqueio não substitui o lançamento contábil ou fiscal correto. A equipe pode precisar registrar a presença física sem classificá-la como compra aprovada e disponível para venda. A forma de fazer isso depende do sistema e da orientação responsável. Não esconda as unidades de um inventário nem force a entrada como aquisição definitiva apenas porque o programa oferece essa opção por padrão.

Se parte do excedente já tiver sido consumida, informe a quantidade e a data com transparência. Apure quanto ainda existe, onde foi aplicado e se é possível identificar a movimentação. Negocie a solução para a parcela utilizada e para a parcela devolvível separadamente. Não registre uma devolução integral de mercadoria que já não está disponível.

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A decisão comercial e a validação fiscal precisam ocorrer antes da liberação ou do retorno.

A regularização fiscal precisa acompanhar o movimento real

O acordo comercial define o destino das unidades e os custos. A documentação fiscal registra a operação e a circulação. Um e-mail, crédito comercial ou recibo de coleta não substitui os documentos exigidos. Antes do retorno, entregue ao responsável fiscal o pedido, os documentos originais e a contagem efetiva.

A Carta de Correção Eletrônica não é uma solução genérica para alterar quantidade ou valor. A SEFAZ-SP, na Resposta à Consulta 33879/2026, reafirma a vedação de correção de variáveis consideradas no cálculo do imposto, incluindo quantidade, com referência ao Ajuste SINIEF 07/2005. Portanto, a promessa de “corrigir tudo por carta” precisa ser conferida antes de a empresa liberar o retorno.

Há orientação paulista específica para o excesso físico em relação à nota. Na Resposta à Consulta 18585/2018, item 12, a SEFAZ-SP indica a emissão de documento complementar pelo fornecedor e, se o destinatário não ficar com a diferença, documento de devolução para seu retorno efetivo. O artigo 182 do RICMS paulista também trata de regularização de diferenças. Essa referência é um exemplo estadual e depende das premissas da consulta; não é um roteiro único para qualquer empresa brasileira.

A administração paulista também examinou uma situação específica de compra de goma resina de pinus de produtores rurais, com peso estimado na origem e pesagem efetiva no destino. Nessas condições, a Resposta à Consulta 33217/2026 admite regularização na nota de entrada emitida pelo destinatário, sem complemento pelo produtor. Não se trata de dispensa geral para mercadoria excedente: produto, condição do fornecedor e regras da operação precisam ser conhecidos antes de escolher o documento.

Peça ao fiscal que confirme quem emitirá cada documento, quais referências serão vinculadas, a quantidade abrangida e quando a mercadoria poderá sair. CFOP, tributação, escrituração e eventuais eventos da NF-e devem ser definidos para o caso, inclusive conforme as regras vigentes na data. Não reutilize um código encontrado em outro retorno nem faça uma “devolução simbólica” apenas para ajustar o estoque sem verificar se ela é admitida.

O que precisa ficar combinado para a devolução funcionar

Quantidade e destino exatos

O acordo deve identificar cada item a devolver, sua unidade, quantidade, lote ou série quando aplicável e os documentos de origem. Indique o estabelecimento que receberá a carga. Se o fornecedor pedir entrega em endereço diferente daquele da operação inicial, confirme a instrução com o responsável autorizado e submeta a alteração ao fiscal e à transportadora. Não presuma que qualquer filial ou cliente do fornecedor pode receber o material com os mesmos documentos.

Coleta, embalagem e custos

Defina quem contrata a transportadora, quem paga o frete, quem prepara a embalagem e quem fornece equipamento de carga. Se o excedente decorreu de erro reconhecido do fornecedor, pode-se negociar que ele providencie e custeie o retorno. Documente a concordância e confira o contrato, em vez de prometer que qualquer despesa será automaticamente reembolsada. Custos extraordinários devem ter causa, valor e responsável identificados.

Estabeleça uma janela concreta de coleta, o contato da portaria e as exigências do local. Informe antecipadamente se há necessidade de agendamento, veículo específico, paletização ou coleta por volume fechado. Isso evita que uma tentativa frustrada produza nova discussão sobre frete e estadia. Se a retirada for remarcada, preserve o agendamento original e a justificativa.

Riscos, conferência e recebimento

Defina as responsabilidades durante carregamento, transporte e descarga. Registre o estado aparente das embalagens na saída e quem recebeu os volumes. Confira seguro e exigências de conservação quando aplicáveis. A distribuição dos riscos deve ser coerente com o contrato e as regras da operação.

O comprovante assinado pelo motorista normalmente documenta a retirada que ele realizou. Peça também a confirmação de recebimento pelo destino e a conferência da quantidade devolvida. Caso o fornecedor pretenda conferir depois, combine como comunicará divergências e quais evidências apresentará. Não trate um protocolo de portaria como quitação de todas as obrigações entre as empresas.

Ajuste da cobrança e encerramento

Indique se haverá substituição da cobrança, crédito, restituição de valor pago ou outra solução comercial aceita. Registre o montante e a referência do título atingido, além da data prevista. Se o acordo usar crédito em compra futura, defina em qual pedido, por quanto tempo e o que acontecerá se não houver nova compra. Um “descontamos na próxima” deixa a pendência aberta e pode exigir uma compra que a empresa não pretendia fazer.

Cláusulas para adaptar ao acordo de retorno

Os trechos abaixo são pontos de partida para uma ocorrência identificada. Preencha os campos, retire o que não se aplica e confirme que o signatário pode assumir as obrigações. Não use uma cláusula comercial para dispensar exigência fiscal, sanitária ou de transporte.

Reconhecimento da diferença: “As partes registram que a entrega vinculada ao pedido [identificação], recebida em [data], apresentou [quantidade] unidades adicionais do item [código e descrição], além da quantidade contratada de [quantidade]. O excedente identificado em [registro/anexo] será devolvido nos termos deste ajuste. Sua guarda temporária não representa concordância da compradora com a aquisição dessas unidades.”

Retirada e custos: “O fornecedor providenciará a coleta das [quantidade] unidades em [endereço e janela], por transportador previamente identificado. O custo de [frete/embalagem/carregamento, conforme acordado] será suportado por [parte]. Despesas adicionais dependerão de [procedimento de aprovação]. A retirada ocorrerá com os documentos fiscais e de transporte definidos pelos responsáveis competentes para a operação.”

Conferência e conciliação: “Na retirada, será emitido comprovante com identificação dos volumes e quantidade entregue ao transportador. O fornecedor confirmará o recebimento em seu estabelecimento e informará eventual divergência acompanhada dos registros de conferência até [prazo ajustado]. A cobrança [referência] será ajustada em [valor e forma], até [data]. O registro da devolução não implica quitação de outras obrigações não discriminadas neste instrumento.”

Quando o retorno modifica condições de um contrato em andamento, o Termo Aditivo Contratual pode organizar o ajuste. Identifique o contrato original e delimite a alteração, por exemplo, coleta extraordinária, custo e conciliação daquele lote. Não é necessário reescrever toda a relação comercial para registrar uma devolução pontual, mas as mudanças precisam ser compatíveis com o instrumento existente.

E se a empresa decidir ficar com parte do excedente?

A decisão pode ser comercialmente vantajosa, desde que seja real e autorizada. Suponha que chegaram 20 unidades extras e a produção precise de oito. Registre que oito serão adquiridas e 12 devolvidas, com preço unitário, total, condição de pagamento e referências. Atualize a separação física para que o transportador não retire as 20 e o estoque não libere todas elas.

A Proposta Comercial pode ajudar a apresentar as condições da aquisição adicional para aceite. Vincule a proposta à ocorrência e identifique a quantidade disponível, a validade da oferta e o que está incluído no preço. O aceite deve corresponder à negociação efetiva; não altere a data do pedido original para fazer parecer que o excedente já estava autorizado antes da entrega.

Se a solução for usar as unidades como antecipação de um pedido futuro, identifique qual parcela será reduzida e em qual data. Atualize o cronograma compartilhado, o saldo do pedido e as instruções de expedição. O acerto falha quando compras considera a antecipação resolvida, mas o fornecedor envia novamente o lote futuro porque seu planejamento não foi alterado.

Se o fornecedor disser que as unidades são uma bonificação, peça confirmação escrita de quem pode concedê-la e encaminhe ao fiscal. O nome comercial precisa corresponder ao negócio realmente acordado e ao tratamento documental cabível. Não transforme um excesso contestado em bonificação apenas para evitar trabalho de regularização.

Duas situações práticas que merecem atenção

A carga foi duplicada, mas uma das notas ainda não chegou

Uma empresa recebe pela manhã o lote de 50 unidades e, à tarde, outro lote idêntico. Antes de chamar o segundo de duplicado, confira pedidos, destinatário, volumes e documentos das duas viagens. Se a duplicidade for confirmada, identifique exatamente qual lote retornará. O registro deve impedir que a devolução seja vinculada à primeira cobrança enquanto a segunda permanece aberta no financeiro.

O lote saiu, mas o fornecedor acusa recebimento de quantidade menor

Compare o registro de separação, as etiquetas, o comprovante do transportador e a conferência no destino. Verifique se houve abertura ou fracionamento de volumes no percurso. Mantenha a discussão restrita às unidades efetivamente divergentes e peça os documentos da apuração do fornecedor. Não dê baixa integral como “resolvido” apenas porque o caminhão deixou o estabelecimento.

Como tratar o pagamento enquanto a devolução está pendente

Concilie a cobrança por item. Se foram contratadas 100 peças a R$ 40, o valor dos produtos pedidos é R$ 4.000. Uma cobrança de 120 peças pelo mesmo preço inclui R$ 800 relacionados ao excedente. O exemplo não considera frete, tributos ou outros componentes: esses valores devem ser conferidos conforme a operação. A memória deve mostrar o que a empresa reconhece, o que contesta e o motivo.

Peça a formalização do tratamento da parte incontroversa e da parte discutida antes do vencimento. Não suponha que a contestação de R$ 800 suspende automaticamente toda a obrigação nem faça um abatimento sem considerar as condições do título e do contrato. Se houver pagamento separado, obtenha documento que identifique a qual parcela ele se refere e preserve o saldo discutido de modo claro.

Quando a cobrança integral já tiver sido paga, combine a forma e a data da restituição ou do crédito comercial. Relacione o comprovante de pagamento ao documento de ajuste e à ocorrência. A confirmação física da devolução não comprova, sozinha, que o dinheiro voltou. O financeiro deve acompanhar a compensação efetiva e evitar que o mesmo crédito seja lançado duas vezes.

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A saída do caminhão não significa que todas as pendências foram resolvidas.

O fornecedor não responde ou não retira: como avançar

Reitere a comunicação pelo canal contratual, com histórico, restrições reais de guarda e janelas de coleta. Peça encaminhamento ao responsável caso seu contato não possa decidir. Preserve envio e respostas, evitando instruções contraditórias em canais diferentes.

Não crie uma taxa de armazenagem retroativa sem base contratual ou acordo, nem desconte esse valor automaticamente de outras faturas. Documente espaço ocupado, despesas efetivas, medidas de conservação e alternativas oferecidas. Essas informações permitem negociar uma solução e avaliar eventual pedido de ressarcimento, sem tratar toda inconveniência interna como indenização previamente devida.

Também não estabeleça unilateralmente que o silêncio tornará a mercadoria abandonada. Se a demora persistir, o valor for relevante ou houver perecibilidade, risco operacional ou impossibilidade de guarda, procure orientação jurídica sobre notificação e medidas adequadas de restituição ou depósito. A providência depende do caso. A necessidade de liberar o estoque não autoriza, por si só, venda, doação, descarte ou uso do material.

Feche a ocorrência com quatro confirmações

Antes de encerrar, confira se a quantidade teve destino definido, se a retirada e o recebimento estão comprovados, se os documentos foram conciliados e se a cobrança foi efetivamente ajustada. São quatro verificações distintas. Uma coleta pode estar concluída enquanto o crédito financeiro segue pendente; a ocorrência deve refletir esse estado, sem esconder a tarefa restante.

Perguntas frequentes

Sou obrigado a comprar as unidades que o fornecedor enviou a mais?

O envio, isoladamente, não demonstra que houve acordo para comprar o excedente. Confira pedido, tolerância, alterações e conduta das partes. Registre prontamente a divergência e sua intenção de devolver, sem usar ou revender as unidades enquanto a solução está pendente.

Posso ficar com o excesso como se fosse uma amostra grátis?

Não presuma isso em fornecimento empresarial. A regra consumerista de produto não solicitado tem pressupostos próprios, e um erro de quantidade precisa ser analisado no contexto. Se o fornecedor oferecer a permanência gratuita, obtenha a confirmação da concessão e valide a documentação fiscal.

A assinatura do funcionário no comprovante impede a contestação?

Depende do conteúdo assinado e das circunstâncias. Preserve o comprovante, registre a descoberta posterior com data real e apresente as evidências da contagem. Não faça rasuras ou ressalvas retroativas para simular uma condição que não foi registrada na entrega.

Quem deve pagar o frete para devolver o excedente?

Confira o contrato, a origem da divergência e o acordo de retorno. Se o fornecedor reconheceu um erro de expedição, negocie que providencie e custeie a coleta. Deixe a responsabilidade expressa antes da contratação do transporte, incluindo embalagem e outras despesas relevantes.

Uma carta de correção resolve a quantidade a mais?

Não necessariamente. A CC-e não serve para corrigir variáveis consideradas no cálculo do imposto, como quantidade. O documento adequado depende da operação, dos documentos originais e das regras aplicáveis. Peça validação fiscal antes de movimentar as unidades adicionais.

Existe um prazo geral após o qual posso descartar a mercadoria?

Não use um prazo de resposta fixado por você como autorização de descarte. Reitere a oferta de devolução e documente as condições de guarda. Se houver silêncio persistente, perecibilidade ou impossibilidade de conservação, busque orientação jurídica e técnica para a providência adequada.

Quando posso considerar a devolução encerrada?

Quando o destino das unidades estiver comprovado, os documentos tiverem sido conciliados e o ajuste da cobrança tiver sido realizado. Guarde retirada, recebimento no fornecedor e prova da restituição ou crédito, quando cabíveis, vinculados ao mesmo registro de ocorrência.

Conclusão

Mercadoria a mais exige pedido comprovado, contagem identificada, excedente preservado, retorno combinado e conciliação final. Se houver interesse em ficar com as unidades, formalize a negociação antes de liberá-las. Se houver devolução, acompanhe o material e o ajuste financeiro até o encerramento, sem confundir coleta realizada com cobrança resolvida.

Fontes

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